26.12.08

Memórias empoeiradas



Olhares. Trocávamos mais olhares que palavras. Ela nunca esperava o dia ficar claro pra ir embora. Tenho pra mim que ela se achava 'charmosa' saindo à noite, sem me acordar. Deve ter visto muito filme, penso. O sincero visto como novidade.

Ela tomava uma caipirinha de morango quando a vi pela primeira vez. Disse que se interessou porque eu a olhei nos olhos mas não disse uma palavra. É claro, eu estava trabalhando. E 'onde se ganha o pão não se come a carne', como dizem. Nesse dia acordei na casa dela, mas saí de dia. Não lembrava onde tinha parado a moto.

Muitas vezes ela fazia as unhas na cama. Tinha uma verdadeira obsessão com a administração de suas unhas. Eu ficava num canto bebendo outro copo, esperando ela terminar e admirando aquela cena. Ela tinha o rosto estampado em algumas traseiras de ônibus, num anúncio de uma famosa franquia de cabelereiros, maravilhosa. Detalhe que ela nunca me falou, eu reparei e comentei com ela que tinha achado parecido.

Deixou umas fotos comigo, que acabo de achar. Belas fotos. No final, quando tudo acaba, as pessoas viram fotos dentro da sua cabeça, acho. Você resgata aquela imagem da pessoa fazendo uma pose, lembra de uma ou outra coisa que viveu... Mas o que foi sentido - e se foi - se perde em algum lugar. Talvez o cheiro fique, o que não deixa esquecer que somos animais.

Eu tinha 17 anos. Ela era onze anos mais velha. Me ensinou a beijar com vontade. Luciana era seu nome. Nunca mais a vi.

'- É L'eau d'Issay que você tá usando?'




19.12.08

A arte de produzir efeito sem causa


Uma semana a menos, uma semana a mais. Qual a diferença?

Foi meio por acaso que descobri a obra de Lourenço Mutarelli. Procurava a bula de um medicamento na internet quando li uma resenha sobre um de seus livros. Já tinha folheado algumas de suas antigas HQs, mas não havia registrado o nome da figura. E já tinha assistido ao filme 'O cheiro do ralo', que é uma adaptação de uma obra sua de mesmo nome.

Uma pena.

Desde então tenho lido bastante coisa assinada por ele. Como por exemplo, 'A arte de produzir efeito sem causa', que acabo de reler - intercalando a leitura com livros técnicos e uma e outra dose de domecq.

O livro é (com o perdão do clichê) um mergulho profundo em si mesmo. Ou melhor, um mergulho profundo na personalidade de Júnior, uma ex-pessoa que se vê diante de uma ex-situação que vai fugindo do seu controle.

Passando pela afasia, aparentemente, mas se aprofundando no 'vírus da palavra' de que trata Burroughs, o autor descreve sucessivamente uma série de eventos que dão uma nítida impressão do que deve ser se afastar de si mesmo. Nem imagino que tipo de experiência ele vivenciou pra narrar o processo com tanta nitidez.

Dialoga com o pai:

"- Filho?
- Quê?
- Eu preciso sair. Você não vai levantar?
- Quem?

- Quem o quê?

- Quem falou?
- Falou o quê, porra?
- Em mim.

- Você está dormindo de olho aberto ou o quê?

Júnior olha fixamente para o pai. Não responde. Sênior se sente ameaçado.
- Qualquer coisa, liga no meu celular.

- Não serve.
- O que não serve?
Júnior faz uma cara feia e repete com voz afetada:
- O que não serve?
- Você está bêbado ou o quê?
- Ou o quê.

(...)

A recepção do hospital está lotada. Uma sala ampla que parece menor do que é e mais estreita, sufocante, devido à quantidade de cadeiras, pela forma como as fileiras estão arranjadas e pela quantidade de pessoas derrotadas e pelo desânimo. Cadeiras de plástico vermelho ocupadas por homens e mulheres cinzentos.

(...)


- Vamos embora, pai.
- Não, vamos esperar. Pelo andar da carruagem a gente vai passar o dia todo aqui, mas agora vamos até o fim.
O hospital lotado. Gente feia e doente.

- O que você está sentindo?

- Cansado. A cabeça coisa. Dá aqui um negócio, confuso. Cansa.

- Vamos ver o que o médico fala.

- Um monte de coisas que aparece com essa coisa de repetir, repetir, repetir.
- É melhor você se acalmar. Quer tomar uma coca?

- Repetindo, sabe, pai? Umas coisa ruim.
- Sei. Eu vou buscar uma Coca-Cola pra você. Quer comer alguma coisa?

- Muito ruim, pai.

(...)

Os três jantam na mesa da cozinha. Júnior não consegue mais fingir que não percebe que aquelas figuras monstruosas são imitações pouco convincentes dos seres que antes habitavam a casa. São grotescas. A cara do pai é uma imitação ainda mais barata. Ele chega a ter nojo daquilo. É evidente que a cabeça do velho é de madeira pintada. Mal pintada. Os cabelos não passam de uma pelúcia barata. Seus movimentos também são mecânicos e desconjuntados. O corpo é estofado de palha."



15.12.08

O mito da auto-suficiência


“Nenhum homem é uma ilha isolada; (...) a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

- John Donne, citado por Hemingway em 'Por quem os sinos dobram'.


Me falaram isso outro dia. Normalmente a solidão ou o caráter solitário das pessoas é associado a algo negativo, à tristeza, à depressão. Discordo. Sempre gostei do silêncio. De ouvir a mente.

Outra associação ao meu ver equivocada é a de que ser só representa uma fuga da realidade. Discordo também. É covardia escolher as lutas que você quer lutar? Tem tanta coisa inútil que eu me abstenho de participar - deliberadamente - e não me sinto nem um pouco diminuído ou impotente diante do meu papel.

Ter um caráter solitário é estar em paz consigo mesmo. E se não houver paz, é ter sabedoria para encontrá-la. É se abster de imputar a responsabilidade pelas suas vitórias ou derrotas a outras pessoas.

É, sobretudo, se achar uma boa companhia e se satisfazer com isso. É ter a certeza, com a mesma serenidade, de que muitas pessoas lhe serão desagradáveis; outras trarão enorme prazer e alegria.

- Voltemos ao silêncio, então.


9.12.08

Por isso que eu amo a psicologia - e as psicólogas de plantão!


"Auto-consciência - Esse termo refere-se a uma percepção aguçada de si mesmo e por conseqüência, a percepção de si mesmo como objeto de observação das outras pessoas. Na realidade, ambas as formas estão relacionadas e são compulsivas no indivíduo esquizóide. Esse indivíduo vive atormentado pela observação compulsiva de seus próprios processos mentais e comportamentos. Ele está de olho nele mesmo durante todo o tempo, avalia cada ação sua e interroga-se sobre elas, de maneira não só compulsiva e, o que é pior, sádica. Ele é ruim consigo mesmo. O indivíduo não tem paz. O self real, que tem um padrão puro e moral, avalia as ações como sendo manifestações do falso self, que é, como dissemos uma instância considerada estranha e perigosa."

-Ah... não é tão ruim quanto parece, meu bem...


Te assombra...


Voltava pra casa, depois de mais um dia subsistindo na base de 'práticas reiteradas'. Parei na padaria pra comprar uma coca, ajudaria na digestão do jantar que eu ainda iria fazer. O troco, obrigado. Saía da padaria. Ouvi então as vozes.

Tenho uma excelente memória olfativa. E o vento me trouxe cheiro de vela queimando. Há uma pequena igreja onde os fiés se acomodam apenas aos domingos para cultuar a Nossa Senhora de Fátima no caminho entre a padaria e a minha casa. Aos sábados e dias de semana, ela fica fechada. Tenho por hábito me benzer toda vez que passo diante do templo. Manias.

Encostada na porta da igreja havia uma jovem, aparentando não ter mais que trinta anos. Com as mãos estiradas nas grandes folhas de madeira que guarnecem a entrada, voltava seu olhar para a rua, mas sem fixá-lo em ponto algum. Ela estava cercada por duas senhoras com vestes tradicionais umbandistas, realmente paramentadas como mães-de-santo.

Uma das supostas ialorixás segurava uma cesta de vime repleta de moedas. Desconfio que eram moedas de baixo valor de face, porque se fossem moedas de R$ 1,00 haveria ali certamente um montante de quatro dígitos.

E enquanto uma segurava a cesta, a outra enchia as mãos com as tais moedas e despejava sobre o corpo da jovem, sem cerimônia. Moedas em profusão. Moedas em abundância. Pensei. O numerário tilintava no chão. E enquanto fazia jorrar generosamente todo aquele níquel sobre a jovem, a mãe-de-santo vociferava numa altura suficiente para que eu pudesse lhe servir de audiência, mesmo estando do outro lado da rua:

"- Eu tô te pagando, seu tatá. Sai daqui e amarra ele. Eu tô te pagando!"

A jovem parecia constrangida e incomodada. Mordia a boca. Nervosa. Suas mãos não mais estavam estiradas. Procuravam desesperadamente um lugar para ficar. Eu não estava olhando para constranger ninguém, pombas. Sei ser discreto. E estava escura, a rua. Passava batido do outro lado da calçada.

Foi quando notei que uma figura me observava. E identifiquei a fonte do cheiro de cera queimada que me invadira as narinas quando saí da padaria. Pelo menos uma dúzia de velas vermelhas queimavam aos pés de um índio. Me parece que ele estava de cocar e tudo. Era bem corpulento, tinha grandes bochechas e olhos meio puxados. Ou talvez estivesse de jeans e camiseta. Não importa. Não sei bem. Tava mais interessado no ritual. Nada obstante, ele me fitava como quem diz: "estou de guarda" ou algo assim. "Saia daqui" ou algo assim.

Continuei andando. Prossegui. Me animei em tirar uma foto. Queria registrar aquele momento belíssimo. Melhor não. A foto poderia me amaldiçoar. Bloqueio da vontade. Enunciado mental que viria num verbete. Não vale a pena perder a temperança de toda uma vida por uma foto, por mais peculiar que ela seja. Pensei.

Ignoro a natureza do serviço para o qual foi contratado o Sr. exu tatá caveira. Espero apenas que tenha valido a pena. E se me arrolarem pra testemunhar - afirmarei que houve o pagamento.


6.12.08

Requiem para um irmão

Acabo de receber uma notícia muito triste. É que um grande amigo deixa a vida pra conquistar a vitória sobre a morte. Nos conhecemos trabalhando na revitalização de uma casa de espetáculos famosa na Lapa, em 2002. Ficamos muito amigos. Trabalhamos juntos, no mesmo setor, quando a casa reinaugurou. Quando acabava o serviço, tomávamos uma cerveja e íamos olhar a 'frequência' do local, tomávamos outra cerveja e dávamos umas boas risadas com os acontecimentos e figuras esquisitas que pintavam na noite. Naqueles dias, ele dizia que "o diabo tinha deixado o alçapão do inferno aberto pra uns desgraçados darem uma volta." Ele tinha quatro filhos, cada um parido de uma mãe diferente. Era um bom pai.

Perdemos o contato quando eu resolvi, por motivos pessoais, sair de lá. O trabalho noturno ali na Lapa é o cemitério de todas as poesias. O tipo de entidade (física ou não) que por ali circula exige que você tenha o corpo muito fechado. E minha armadura estava apresentando sinais de desgaste. Tava enferrujada.

E não deu outra. Fui sabendo, através de relatos, da queda do grande amigo, que morava ali mesmo, na Joaquim Silva. Perdeu o emprego. Ganhou uma doença. Perdeu a audição. Ganhou problemas.

Não conseguia mais achá-lo no celular, nem o encontrava quando, contrariado, eu me dirigia ao bairro dito boêmio.

Encontrava com a sua mãe, às vezes, mulher forte, guerreira. Mais uma pra você segurar.

Devo ao Júnior muitas coisas. Gostávamos de brincar com quem pedia informações, ao nosso juízo, estúpidas, chamando-os de 'chat-amizade'. Sempre tínhamos um 'babalu' pra oferecer às moças desavisadas. As duas meninas, aliás, que trabalhavam conosco, uma franzina e outra mais pacotuda, chamávamos de 'CG 125' e 'Twister', respectivamente. Virava pra mim várias vezes, e falava essa frase, com um puta sorrisão e os olhos arregalados: "- Deixa eu falar com o coroa ali, que playboy eu prancho logo!", em alusão a um episódio que passamos juntos. E nos mijávamos de rir. Quando trabalhávamos dobrado - e ganhávamos dobrado - ele gritava: "- Doblô!" e dizia que ia "tomar um bom café da manhã". E quando se referia a alguém que não inspirava muita simpatia, falava simplesmente : "- ah, aquele pateta". Júnior era um cara com um nível de cultura e esclarecimento impressionantes. Já tinha feito muitas coisas, trabalhado em muitos lugares. Grande figura. Sujeito-homem.

Fiquei lhe devendo uma fita K7 - que hoje dificilmente são encontradas - com uma lista de músicas que ele pediu. Nunca entreguei, e ele sempre me sacaneava por isso.

Espero que você esteja num lugar mais justo, meu irmão. E em paz. Serenidade. E busque a luz, por mais fraca que seja, se a escuridão te abraçar aí. Nós já conversamos sobre isso. Você tá ligado. Olha pra luz e pede, que ela vem te buscar. Sem medo.

Vitória sobre a morte!

Mais um teto e o não-resignado


Belíssimas palavras escritas há mais ou menos um decênio atrás, por um grande amigo - Pedro Serrano - cuja alma é dada à fanfarronice e ao devotamento aos seus camaradas. Pedrão sempre soube da minha admiração por este texto, então porque não torná-lo público? Se ler isso, meu caro, um forte abraço - esteja onde estiver!

"Mais um teto e o não-resignado

Essa casa deveria ser um retrato dos nossos corações
– Nosso amor, seu chão; nossos sonhos, suas paredes...
Inexplicavelmente, seu espaço gera limites. Quebra tetos de vidro.
“Ah, se as unhas roessem os meninos...”
Meninos com serenidade para aceitar o inaceitável, com coragem para mudar o imutável, mas sem sabedoria para conhecer toda a diferença.
A profundidade almejada por voces não passou, e não passa da lenta aproximação do que nunca chega. Talvez a real profundidade seja o espelho de um sonho próprio. Minha certeza é que há mais coisas além da distância que nos separa e o tempo.
Tempo, irmãos, tempo..."

Ares novos




A realidade é que eu já estou meio farto dessa merda... Rio... Niterói... Barcas... estou pensando em me mudar pro sul. Não conheço o sul do Brasil, infelizmente. Brusque, Santa Catarina. Se bem que Brusque não tem praia...

5.12.08

Algia







Acordei com uma tremenda dor no cerebelo. Acredito que quando você é capaz de identificar a sede da dor, é porque ela é bem intensa. A exceção são os rins. A dor é lancinante, mas nem se cogita de onde ela irradia. Enfim.

Acontece que essa semana uma queimadura não cicatrizada no braço e uma cepa desconhecida do vírus influenza tentaram molestar a minha saúde. Não conseguiram nada além de me inchar o sistema linfático. Senti o gosto de uma tonsila inchada na boca a semana inteira. Debaixo do meu braço, lutando contra a infecção que queria se instalar na queimadura, uma íngua.


Não é soberba; mas de que adianta gozar de uma boa saúde se você não pode pô-la à prova? Além disso, já tomo tantos comprimidos que eles provavelmente acabam substituindo o apropriado (essa foi de fazer um estudante de medicina ou farmácia arrancar os pentelhos).


Voltando à dor no cerebelo. Parece que na cabeça tem um furo. E quando calha, vem alguém pobre de espírito e enfia um aramezinho com um gancho na extremidade e fica rodando dentro do seus miolos. A dor vem em ondas. Aumentando a intensidade e diminuindo o intervalo entre uma e outra onda com o tempo. Trabalho de parto. Associo.


Chega no limite, quando a dor é tão forte que um dos seus olhos ficará mais aberto, e você só tem a opção de morder a língua com toda a força pra ter outra dor e assim conseguir raciocinar. Ou então deixa a dor dominar o seu corpo, que ficará sem obedecer qualquer comando mental por alguns instantes. Tipo um transe, sei lá. Só sei que depois de minutos - que parecem horas - a dor passa.







Disse isso porque meu fígado não é penico pra analgésicos.






Clube da Luta



Ele sofre de insônia e não percebe muito bem o que acontece. O marasmo da sua rotina sela a sua personalidade, que aderiu ao consumo depravado de bens descartáveis. Busca com a sede de um camelo uma solução para seu desconforto em grupos de ajuda.

Ele é pervertido. Trabalha como projecionista num cinema e insere slides na película do filme mostrando toda a sua nudez por um quadro. Faz bico como garçom em jetsets da alta sociedade, mas mija no consomé de trufas que será servido aos convidados.

Ele não percebe... nem mesmo quando lhe é feito o inusitado pedido: - Quero que você me bata com toda a força.

A narrativa descreve o encontro da personalidade esquizofrênica:

"Você acorda na praia.
Tyler desenhou uma linha reta na areia, alguns metros à frente. Depois voltou para pôr o tronco em pé e socou areia ao redor da base.
Só eu estava vendo isso.
Tyler gritou de longe:
— Sabe que horas são? Eu sempre uso relógio.
— Sabe que horas são? Onde? — perguntei.
— Aqui mesmo. Agora — disse ele.
Eram quatro horas e seis minutos da tarde.
Em seguida, Tyler sentou-se com as pernas cruzadas na sombra dos troncos plantados. Ficou lá um tempo, levantou, tomou banho, vestiu camiseta e calça moletom e se pôs a caminho. Eu tinha de perguntar.
Precisava saber o que Tyler ficara fazendo enquanto eu dormia.
Se eu pudesse acordar em outro lugar, numa outra época, seria outra pessoa?
Perguntei a Tyler se ele era artista.
Tyler ergueu os ombros e mostrou que os troncos eram mais largos na base.
Mostrou o traço que havia feito na areia e disse que usou essa linha para nivelar a sombra projetada pelos troncos.
Às vezes, você acorda e precisa perguntar onde está.
O que Tyler fez foi a sombra da mão de um gigante. Naquele momento os dedos eram longos como os de Nosferatu e o polegar muito curto, mas ele disse que às quatro e meia em ponto as mãos ficariam perfeitas. A mão do gigante ficou perfeita por um minuto, e por um minuto perfeito Tyler sentou-se na palma da perfeição que ele próprio criara.
Você acorda e não está em parte alguma.
É só um momento, disse Tyler, você dá um duro danado, mas um momento de perfeição vale qualquer esforço. Um momento é o máximo que se pode esperar da perfeição.
Você acorda e basta."

Acho que gostei mais do livro. O filme é ótimo também - ressalvadas distintas opiniões em contrário. O tema é, ao senso comum, a indissociável ponderação entre a violência e a sanidade. Mas o discurso do autor passa pelo vazio das pessoas... e da capacidade que elas tem para seguir algo cegamente, que seja uma ideologia, uma religião ou uma pessoa. E como isso pertence ao foro íntimo de cada um, me curvo ante à teoria da índole da multidão de Bucowski.

Normalmente, o 'seguidor' não manifesta o seu poder pessoal quando isolado. Em grupo, relativiza o que convencionou-se chamar de 'juízo de reprovação pessoal' e age de forma completamente diversa. Imagino que tanto a psicologia como a sociologia cuidem desse fenômeno - que Chuck Palahniuk tão bem caracterizou no Clube da Luta.

Em orações curtas, diálogos e vocalizações da psique dos personagens, eis o vazio espiritual e cultural de toda uma geração que acaba sendo preenchido 'nas coxas':

"O auto-aperfeiçoameno talvez não seja a solução.
Tyler não conheceu o pai dele.
A solução talvez seja a autodestruição.
Tyler e eu continuamos indo juntos ao clube da luta. O clube da luta acontece nas madrugadas de sábado para domingo, no porão de um bar, quando as portas se fecham; a cada semana tem mais gente.
Tyler fica embaixo da única lâmpada no meio do porão escuro e vê a luz refletida em centenas de olhos. A primeira coisa que Tyler grita é:
— A primeira regra do clube da luta é não falar do clube da luta.
— A segunda regra do clube da luta é não falar do clube da luta.
Eu vivi com meu pai uns seis anos, mas não me lembro de nada. A cada seis anos meu pai formava uma nova família em outra cidade. Não se tratava tanto de formar uma família como de abrir outra franquia.
O que se vê no clube da luta é uma geração de homens criados por mulheres. Tyler fica sob a única lâmpada em plena madrugada, no porão repleto de homens, e passa as outras regras: dois homens por luta, uma luta por vez, sem camisa e sem sapatos, a luta só termina quando os dois quiserem.
— E a sétima regra é: se esta é a sua primeira noite no clube da luta, você tem de lutar.
O clube da luta não é futebol pela televisão. Você não está assistindo a um bando de homens que nem conhece batendo um no outro ao vivo via satélite com delay dois minutos, comerciais de cerveja a cada dez minutos e uma pausa para a vinheta da estação. Depois de conhecer o clube da luta, assistir a futebol pela televisão é como ver filme de sacanagem quando você poderia estar dando uma boa trepada.
O clube da luta acaba sendo um bom motivo para você frequentar academia, manter cabelo e unhas bem aparados. Nas academias está cheio de gente tentando ser homem, como se ser homem é ser o que determinam os escultores e diretores de arte."


Finalizo ponderando que o indivíduo esquizofrênico (e o esquizóide como um esquizofrênico na potencialidade) não prescinde de um marcador que o faça lembrar que ele de fato existe; são pessoas que possuem uma noção íntima em relação ao que é real muito própria... Há aquelas que precisam sangrar para terem a certeza de que estão vivas.. Outras saem por aí gritando debalde o seu próprio nome...



4.12.08

Nublado


Tradução de Joseph Conrad: Coração das Trevas. O trecho foi utilizado recorrentemente no antológico filme dirigido por Francis Ford Coppola, o Apocalypse Now - um puta filme, por sinal - e na música 'Heart of Darkness', do Iron Maiden.




Eu olhei no coração das trevas

onde a jornada escarlate terminará...

Ao enfrentar esse coração das trevas,

até sua alma se ajoelhará.


(...)


Agora permaneço só na escuridão

com o seu sangue em minhas mãos

Onde figurava o guerreiro trovador

jazem os cacos de um sonhador

O vírus da palavra de Mersault - Continuação


Alguns dizem que é uma vida fácil, a do protagonista. Ao não se envolver emocionalmente com ninguém, abdicando quase que completamente do diálogo social, exime-se de responder aquelas perguntas cuja resposta pode levar uma outra pessoa ao paraíso ou ao inferno. Não aceita ser responsabilizado pela felicidade nem pela tristeza de outrem. Inadmite cobranças - posto que não as irroga em desfavor de quem quer que seja.


O seu fatalismo chega a um ponto quase de acomodação; aceita de bom grado o que lhe aparece, mas ao mesmo tempo é capaz de abrir mão de tudo como se nada tivesse possuído. É capaz de amar perdidamente uma mulher hoje, para então dizê-la amanhã: - Adeus, meu bem. E ir.


O estrangeiro anda só e toda a sua companhia é eventual. Até os seus pensamentos são eventuais. Ele não se prende às imagens mentais, de forma a não sentir falta nem delas.



"Nessa altura pensei muitas vezes que, se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação, além de olhar a flor do céu por cima da minha cabeça, ter-me-ia habituado pouco a pouco. Observaria a passagem das aves ou os encontros entre as nuvens, tal como aqui observava as extraordinárias gravatas do advogado e como, num outro mundo, esperava até sábado para apertar nos meus braços o corpo de Maria. Ora a verdade, afinal de contas, é que eu não estava dentro de um tronco de árvore. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Acabamos por nos habituar a tudo, gostava a minha mãe de dizer..."

3.12.08

O vírus da palavra de Mersault




José Augusto Mourão, no prefácio à edição galega de Eletronic Revolution, um livro de William Burroughs, atestou:

"A palavra escrita é, literalmente, um vírus, uma forma maligna e letal. A crença de que algumas palavras e combinações de palavras podem produzir doenças e perturbações mentais graves é partilhada não apenas no campo da magia mas também no campo da psicolingüística e da pragmática. O efeito chamado perlocutivo é o efeito somático provocado pela proferição (elocução) da palavra que tem uma força (ilocucionária) particular."

Óbvio que só descobri isso depois de ler, após muito tempo figurando na estante, o clássico 'O Estrangeiro', de Albert Camus.

O curioso é que passamos um lapso mais ou menos extenso de tempo hibernando em relação a alguma idéia; quando alguém - ou algo - materializa essa idéia, sentimos o tempo perdido... Sentimos a falta que ela, sistematizada daquela forma, fez em nossas vidas.

Digo isso porque não aceitava ser como o Mersault. Fingia acreditar. Fingia achar bonito o amor. Fingia uma porrada de coisas. Fingia.

Ele foi condenado - afinal não chorou no enterro da própria mãe. Tudo bem, ele matou um cara. Mas a 'razão determinante' de sua condenação não foi, como era de se esperar e como prescreve a boa aplicação do direito, o dolo em que obrou. O desvalor do resultado 'morte' foi secundário. Ele não chorou, não se emocionou ante o túmulo de sua mãe, eis o motivo de sua sentença.

Ora, mesmo os mais implacáveis homicidas prestam suas homenagens às mães. Não digo isso por conhecimento próprio, mas por diversas daquelas tatuagens 'de cadeia', com sua beleza naïf e feitas com a rudeza de agulhas e tintas simples e o corpo de uma simplória caneta bic que não me deixam mentir.

...

Diversos trechos desse livro ainda me ecoam nas têmporas. Sim. Segue um deles:

"Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de fato queria casar, estava bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. "Nesse caso, porquê casar comigo?", disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nos podíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim.

Maria observou então que o casamento era uma coisa muito séria. Respondi: "Não". Maria calou-se durante uns instantes e olhou-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceito uma proposta semelhante. Respondi: "Possivelmente".

Perguntou então de si para si se gostaria de mim, mas, sobre esse ponto, como poderia eu saber alguma coisa? Depois de mais uns instantes de silêncio, murmurou que eu era uma pessoa estranha, que gostava de mim se calhar por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrários. Como eu me calasse, por não ter nada a acrescentar, tomou-me o braço a sorrir e declarou que queria casar comigo."


O alfa


Um modelo chinfrim desses e pronto... mais um 'blog' que aparece. Sempre achei meio devassidão escrever para que outras pessoas leiam. Que me perdoem os honrados profissionais da escrita. Mas estimulado pelo amigo Fusca, e acobertado pelo relativo anonimato me senti à vontade para escrever.

Acontece que nesses anos tenho me deparado e convivido com coisas pitorescas demais para guardá-las só para mim, e não sei por quanto tempo me lembrarei delas. Muitas já se escoaram pelo ralo do esquecimento. Creio - e espero - que os servidores do google sejam um bom repositório para minha frágil memória.

Não tenho a pretensão de discorrer sobre a natureza humana. Não. Meu ponto de vista tende a ser o da natureza humana 'elevada-a-menos-um'. O que sempre me chamou a atenção foi o inesperado... o bizarro, o irracional.

É da natureza do homem ser racional? Talvez. Se comportando como uma presa, usando toda as suas faculdades racionais o homem não passa de uma vítima dos seus pensamentos. Pondero que toda a razão tem hora e lugar certo para ser usada. Eu mesmo no 'cotidiano' sou mais um burocrata de mierda, supostamente comprometido laboralmente. Ser capaz de enganar 'burocratas-seniores' com uma bela apresentação no powerpoint. Mentir para o chefe e fazê-lo acreditar no que você disse, repassando a informação adiante. Manipular uma mulher até ela achar que faz o que quer porque quer. Isso é racionalidade.

Mas fora os momentos de racionalidade, que confesso, não são muitos, impera a 'loucura controlada'. Seja por força da vontade ou por pela inexorável via da farmacocinética.

Pretencioso demais? Paciência.

O título vem da obra homônima de Charles Bukowski. Lembro de ter tido acesso ao livro em tenra idade, alhures, na casa de algum parente, penso. Um trecho ficou para sempre gravado na minha cabeça... e agora terei o prazer de reproduzir. Quem tiver olhos de ler, que leia:

"Sempre destacavam novatos pra limpar a sujeira dos pombos e enquanto a gente ficava limpando, os desgraçados voltavam e cagavam de novo no cabelo, na cara e na roupa da gente. Não se ganhava sabão - apenas água e escovão, e tinha-se que fazer muita força pra tirar toda aquela porcaria. Mais tarde mudava-se pra oficina mecância, onde pagavam 3 cents por hora, mas quando se era novato, a primeira coisa que se fazia era limpar merda de pombo.

Eu estava junto quando Blaine teve a idéia. Viu, parado no canto, um pombo que não podia mais voar.

- Escuta - disse ele, - eu sei que esses bichos falam uns com os outros. Vamos fornecer assunto para aquele ali. A gente dá um jeito nele e joga lá pra cima do telhado, pra contar pros outros o que tá acontecendo aqui embaixo.

- Tá legal - concordei.

Blaine se aproximou e levantou o pombo do chão. Tinha uma pequena gilete enferrujada na mão. olhou em torno. Estávamos no canto mais escuro do pátio de exercício. Fazia muito calor e havia uma porção de presos por perto.

- Algum dos cavalheiros presentes não gostaria de me auxiliar nesta operação?

Não houve resposta.

Blaine começou a cortar a pata do pombo. Homens fortes viraram as costas. Vi um ou dois, que estavam mais perto, cobrindo a fronte com a mão para não enxergar.

- Porra, caras, o que é que há com vocês? - gritei. - A gente já tá farto de ficar com o cabelo e os olhos cheios de merda de pombo! Vamos dar um jeito neste aqui pra, quando chegar lá em cima no telhado, poder contar pros outros: "Tem uns sacanas desgraçados lá embaixo! Não cheguem perto deles!" Este pombo vai fazer com que os outros parem de cagar na cabeça da gente!

Blaine joga o pombo pro alto. Não me lembro mais se a coisa deu certo ou não. Só sei que, enquanto esfregava, minha escova bateu naquelas duas patas. Pareciam estranhíssimas, assim soltas, sem estarem ligadas a pombo nenhum. Continuei esfregando e misturei tudo na merda."